Actos 8:26-40
Filipe e o eunuco

Como somos / a nossa situação
Jesus disse: “Se vós permanecerdes na minha palavra verdadeiramente sois meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:31,32)
Esta é sem dúvida uma das grandes verdades expressas por Jesus quando ensinava. Queria Ele dizer que todos aqueles que constantemente aprendem a sua palavra são discípulos (palavra que, em grego, significa o que aprende). Aqueles que constantemente aprofundam a verdade da Palavra de Deus, até que o seu significado possa ser apropriado pessoalmente e se transforme em ações de obediência à vontade de Deus, são os verdadeiros discípulos.
O texto bíblico de Actos 8:26 a 40 fala-nos de um homem que amava a Deus. Um homem que fez uma longa viagem à cidade santa dos judeus para adorar.
Lucas faz uma descrição bastante pormenorizada deste homem no v.27, e isso faz-nos entender como seria a sua vida religiosa e a sua posição no judaísmo. Sendo um homem de grande destaque na corte da rainha da Etiópia, um mordomo-mor, gerente e administrador de todos os seus bens, tinha ido a Jerusalém para adorar.
No entanto, este versículo afirma muito claramente que ele era um etíope, e, ainda por cima, eunuco. Dois grandes problemas para o povo de Deus. Um etíope era um estrangeiro, um pagão, provavelmente até uma pessoa de cor diferente. Eunuco é uma palavra que, na Bíblia, se refere a uma função desempenhada, mas que aqui é claramente uma referência à sua condição de castrado, dado que a sua função é descrita por duas palavras: mordomo-mor e superintendente.
E por que é que o autor deste episódio teria referido isto? Seria este um verdadeiro discípulo? Ele tinha feito uma longa viagem para adorar a Deus no seu santo templo, e durante o caminho não cessava de ler as palavras dos Profetas de Deus nos textos sagrados.
Podemos perguntar: Não seria ele um bom crente? Um zeloso seguidor de Deus?
A lei judaica dizia, em Deuteronômio 23:1: “aquele a quem forem trilhados os testículos, ou for cortado o membro viril, não entrará na assembleia do Senhor.” Portanto, podemos deduzir que este eunuco seria o que alguns estudiosos chamam um “prosélito da porta”, a quem era negada a entrada no templo ou um “temente a Deus” que nem poderia ser um prosélito por ser considerado deficiente.
A religião é assim. Limita com regras e leis a relação dos seres humanos com Deus.
Mas, Jesus trouxe uma mensagem diferente: “Se vós permanecerdes na minha palavra verdadeiramente sois meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:31-32)
Permanecer na Palavra de Jesus liberta
O estudo da Palavra é um factor determinante na transformação das pessoas.
Costuma ir à igreja para adorar? Crê em Deus? Procura seguir as regras de uma religião? Tem zelo na obediência? Estará tudo be na sua relação com Deus? Considera-se ou não um discípulo de Jesus? Será que a sua vida foi transformada e está a ser constantemente renovada?
Lucas mostra-nos como era a vida deste etíope: um deserto.
Sem dúvida, Lucas faz uma afirmação teológica ao descrever a situação que Filipe iria encontrar: um caminho deserto, à hora de grande calor! Porque a frase que está nas nossas Bíblias “em direção do sul” também pode ser traduzida não só por uma expressão que designa o lugar, mas por uma expressão de tempo significando “ao meio dia”.

Um deserto, ao meio dia, à torreira do calor! Era aí que se encontrava este temente a Deus!
A nossa vida espiritual sem transformação é um deserto, é seca, é cheia de sede. É uma vida mirrada, em situação difícil. Uma vida árida e improdutiva.
Podemos ter temor a Deus; podemos ser motivados pelo medo de morrermos e não irmos para o céu; podemos gostar muito do louvor, achar os costumes religiosos da igreja muito interessantes… afinal todas as igrejas ensinam o bem… mas a nossa vida espiritual é um deserto.
A religião amarra e o cristianismo liberta.
Transformação é um conceito chave do cristianismo – nós somos uma nova criação em Cristo (I Coríntios 5:17). É a imagem da larva que morre para si mesma para se transformar numa bela borboleta!
O que é preciso acontecer então para mudar as coisas? O que é necessário acontecer para que se opere transformação nas nossas vidas?
Em primeiro lugar, a ação de Deus é fundamental
Precisamos de deixar que Deus actue rápida e plenamente na nossa vida.
O nosso texto afirma que o processo de renovação/transformação da vida é iniciado e conduzido por Deus.
Deus chama as pessoas à salvação, e Deus apela à transformação constante: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:1,2)
Deus também nos chama a uma entrega para O servirmos, para sermos seus instrumentos na transformação de outras pessoas.
A orientação divina é fundamental no processo de transformação, usando pessoas preparadas para liderarem o estudo da Palavra de Deus.
No v.26 é clara a referência ao anjo do Senhor que diz a Filipe: Levanta-te e vai. E este, conforme diz o versículo seguinte “levantou-se e foi” em obediência incondicional.
Teologicamente, “o anjo do Senhor” refere-se à presença divina. No v.29 encontramos a referência ao “Espírito” que continua a orientar Filipe quanto ao que deve fazer. É interessante que Lucas só volta a falar no Espírito do Senhor no v.39, quando afirma que eles sairam da água e Filipe foi levado para outro lado.
Deus conduz o processo de transformação da vida das pessoas usando os seus servos como ensinadores da Palavra. E Deus está atento às necessidades das vidas das pessoas e usa os seus servos, crentes fiéis e preparados para esclarecer, para clarificar, para ensinar, para ajudar nesse processo. Por exemplo, Deus chama professores para a Escola Bíblica Dominical que se preparam para ensinar a Palavra.
Deus sabia que o eunuco estava num deserto, que precisava urgentemente da água viva para refrescar a sua vida, para a vivificar. E Deus escolheu Filipe e usou-o de um modo maravilhoso.
E o que fez Filipe? Um grande milagre? Curou o eunuco do seu defeito físico? Não. Explicou-lhe o que ele precisava de entender – a Palavra de Deus que aponta Cristo, o Salvador e Senhor da vida!

Em segundo lugar, o desejo de aprender é essencial
Ao estudar este texto, foi muito importante para mim descobrir que a palavra “lia” que aparece no v.28 e 30 no original em grego não é propriamente o verbo “ler”, mas um verbo que quer dizer “querer conhecer”, “procurar entender”, “usar a mente”. Poderíamos então traduzir estes versículos assim:
v. 28 – “regressava e, sentado no seu carro, queria conhecer o profeta Isaías” (ou “procurava entender” o profeta Isaías).
v. 30 – “E correndo Filipe ouviu que procurava conhecer o profeta Isaías e disse: entendes tu o que procuras entender?”
O desejo de aprender é essencial. Às vezes nós pensamos que já sabemos tudo. Basta-nos o sermão dominical e já vamos “cheios” para casa…
O eunuco lia o profeta e procurava conhecê-lo mais profundamente, procurava descortinar o significado daquela Palavra que ele entendia ser importante. Mas ele não tinha acesso à Assembleia Judaica e a sua ansiedade era tanta que, quando Filipe se lhe dirigiu, rogou-lhe que se sentasse com ele (v.31) e rogou-lhe que lhe explicasse (v.34). E questionou o que estava escrito; fez perguntas e procurou compreender.
A disposição para aprender é o primeiro passo para uma mente aberta à transformação.
“Como poderei entender, se alguém não me ensinar?” E aqui a palavra ensinar significa conduzir, orientar e vem de uma palavra cuja raiz é a palavra caminho. Isto é: preciso que alguém me mostre o caminho. Quem me orienta?
Como podemos conhecer o caminho do Senhor? Ele disse: “Eu sou o caminho…”. Como conhecer o caminho recto por onde conduzir as nossas vidas, se não procurarmos conhecê-lo, se desprezamos as oportunidades que temos de sermos orientados pelo estudo da Palavra de Deus?
Eu não consigo perceber como é possível não haver interesse pela Escola Bíblica Dominical, pelos cultos de estudo bíblico. Como é que podemos trocar esta bênção por mais uma hora na cama ou por um tempo no sofá a fazer zapping na televisão? Como podemos amar a Deus se não O conhecemos? Como podemos obedecer-lhe se não sabemos o que Ele quer? Como podemos contentar-nos com um cristianismo de rotina, de frases feitas nos quais devemos crer sem entender, de passivos espectadores de sermões?

Em terceiro lugar, o estudo da Palavra é libertador e transformador
O v. 35 diz: “Então Filipe tomou a palavra e, começando por esta escritura, anunciou-lhe Jesus.” Já Jesus fazia o mesmo, quando seguia com os desencorajados e cépticos discípulos a caminho de Emaús – um episódio também relatado por Lucas, no seu evangelho.
Lucas 24:27 – “… e começando por Moisés, e por todos os profetas, explicou-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.”
vindo eles a reconhecer:
v. 32 “Porventura não se nos abrasava o coração, quando pelo caminho nos falava, e quando nos abria as Escrituras?”
e na mesma hora decidiram voltar a Jerusalém e a reunirem-se com os outros.
Filipe falou de Jesus, através do texto do capítulo 53 de Isaías falou-lhe do servo sofredor, do cordeiro de Deus, da atitude de Deus que se identifica com o sofrimento humano e se entrega até à morte, e morte de cruz, para nossa redenção.
E o estudo desta escritura e a explicação da Palavra operaram libertação e transformação.
Que impede? é a pergunta do eunuco.
Num contexto em que os judeus cristãos tinham reservas em levar o evangelho aos gentios; em que Filipe se aventurou a pregar ao samaritanos que reagiram à sua pregação crendo no nome de Jesus e foram baptizados (Actos 8:12); num contexto em que era proibido a um eunuco, ainda que temente a Deus, passar da porta do templo, por ser deficiente, que impede?
Haverá impedimentos ao poder transformador e libertador da Palavra de Deus, quando este opera na vida das pessoas?
Que impede?
Para Deus não há eunucos que não sejam aceites, não há complexos e limitações dos quais não possamos libertar-nos.
Nós, seres humanos, criamos barreiras, dividindo-nos em classes sociais, separamo-nos pela quantidade de dinheiro que aparentamos ter, pela cor da nossa pele, pelas ideias que temos e opiniões que expressamos.
Mas para Deus não há impedimentos. Nada pode impedir a renovação da mente, a libertação dos preconceitos, quando Deus actua na vida pelo estudo da Sua Palavra.
Uma definição do que significa ensinar do ponto de vista cristão, diz assim:
O ensino cristão é a comunicação da experiência da salvação em Jesus Cristo de tal maneira que a vida do aluno se transforma, chega a desenvolver-se e a aperfeiçoar-se mediante a sua relação com Deus em Cristo.
A transformação foi visível no caso deste eunuco em passos de obediência concretos e visíveis:
O v. 36 diz-nos que ele pediu para ser baptizado.
O v. 39 diz que seguiu o seu caminho jubiloso.
O baptismo é um acto que simboliza publicamente o que se opera à semelhança da borboleta. Éramos larvas e demos a vida a Cristo, envolvemos a nossa vida num casulo chamado Cristo, morremos para nós mesmos e ressuscitámos para uma nova vida, não mais rastejando, mas voando em alegria. O baptismo é um passo que mostra a nossa transformação.
Uma vida alegre e feliz é outra evidência. Não mais um caminho deserto, não mais aridez, mas um caminho de júbilo, um caminho novo, um caminho que se nos abriu pelo ensino da Palavra.
Jesus disse:
“Se permanecerdes na minha palavra verdadeiramente sois meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8: 31-32)
Só podemos ser livres, transformados, renovados na nossa maneira de pensar e de agir se conhecermos a verdade. Mas para isso temos de permanecer na palavra.
Vamos, então, aproveitar ao máximo as oportunidades de estudo da Bíblia.
Vamos buscar activamente conhecer mais a Deus para nos conduzirmos nos seus caminhos.
Vamos deixar que Deus nos liberte dos nossos complexos, dos preconceitos e das barreiras que construímos, através da compreensão dos Seus princípios expressos na Sua Palavra.